segunda-feira, 11 de julho de 2005

Peter Block no Conarh 2005

Peter Block no Conarh 2005

Em sua segunda vinda ao país, o palestrante norte-americano Peter Block apresentará o tema Os caminhos da transformação: agindo no que faz sentido, no CONARH 2005 - 31º Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas. Nesta entrevista, ele defende a busca da praticidade e da racionalização da crítica no trabalho, parte dos pensamentos que serão aprofundados no congresso, marcado para acontecer no Transamérica Expo Center, em São Paulo (SP), de 1º a 4 de agosto.
O que mudou no mundo empresarial desde seu último livro (The Answer to How Is Yes: Acting on What Matters, lançado no Brasil com o título Comportamento Organizacional, pela editora M. Books), publicado em 2002?PETER BLOCK - O mundo empresarial tornou-se mais poderoso em nossa cultura, passou a ser mais economicamente concentrado, em benefício do executivo e do acionista, e em detrimento do cliente e do empregado. Como resultado, o investimento nas pessoas declinou e a função RH está sendo terceirizada e informatizada. Esse é mais um motivo para que as pessoas dediquem sua atenção ao que realmente interessa, executem seu trabalho de uma maneira que tenha significado e não procurem o chefe para aprovação ou como fonte de satisfação.
O pedagogo brasileiro Paulo Freire é citado no livro como leitura obrigatória. Como ele o influenciou?PB - Entre uma centena de outros ensinamentos, Paulo Freire foi muito explícito a respeito do que acontece quando as pessoas são controladas por outros, o que ocorre com muitos de nós na cultura patriarcal em que vivemos. O verdadeiro problema não está naqueles que exercem o controle, mas na maneira pela qual internalizamos a mensagem de que somos deficientes de certa forma, e acreditamos que a origem de nosso sofrimento está em nossa criação. Isso significa que a chave para a transformação está na conscientização a respeito de que o que sempre aceitamos como verdadeiro, na forma com que o mundo funciona, é apenas uma ficção que absorvemos. Esse discernimento nos dará a possibilidade de construir um novo mundo e novas formas de vida organizacional.
Existe uma nova ética empresarial para as companhias globais?PB - Uma nova ética é necessária. A globalização tornou-se a matéria de capa e a racionalização para o novo imperialismo econômico. A globalização americana refere-se à expansão de novos mercados para os produtos americanos, não está preocupada com os benefícios de uma maior conexão entre culturas e na forma de ver o mundo.
A base da sustentabilidade social, econômica e ambiental poderia ser um tipo de modelo para as organizações no futuro? PB - Para que os três resultados sejam autênticos, precisaremos mudar nossa forma de pensar no objetivo essencial das empresas do setor privado. A questão é determinarmos se o objetivo essencial e primário de uma corporação é auferir lucro. Se a resposta for sim, então as preocupações sociais e ambientais serão reduzidas a dispositivos instrumentais para aumentar o lucro. É uma questão de propósito que nenhuma técnica nova será capaz de impactar.
Do envolvimento ao comprometimento: as empresas estão realmente fazendo essa transição?PB - Existem empresas que criaram um futuro através do comprometimento. São raras, mas se isso ocorre em um local em um determinado momento, então é possível para todos nós. E não precisamos de uma concordância completa ou de consenso. A transição não precisa, necessariamente, acontecer em sua empresa como um todo. A única coisa que precisa fazer a transição é nossa própria unidade, aquela parte do mundo que nós controlamos. Quando isso ocorrer, o mundo inteiro terá mudado.O senhor fará ajustes em sua palestra, considerando as diferenças econômicas e a diversidade cultural?PB - Esta é minha segunda visita ao Brasil. A primeira viagem foi sedutora, inquietante e me senti inundado pela cordialidade das pessoas. As idéias que advogo são aplicáveis a todas as culturas, porém a forma com que as expresso é sempre influenciada por meu conhecimento da cultura local. Além disso, quanto mais nos aprofundamos na experiência humana, maior é a conexão entre todos.
Em um mundo tão orientado a buscar resultados a curto prazo, como podemos contrabalançar ações pressionadoras e idealismo?PB - A orientação a curto prazo é uma defesa contra o idealismo e faz a verdadeira diferença. Resultados imediatos e velocidade são opções, não necessidades. É o idealismo que cria um futuro alternativo. Portanto, a questão passa a ser se você quer criar um futuro diferente do passado. Para aqueles que buscam um futuro alternativo, a transição para o idealismo é uma condição essencial. A noção de que um novo amanhã pode ser comprado com velocidade e resultados medidos a curto prazo é uma ingenuidade ou uma máscara para o desejo mais honesto de manter o amanhã exatamente como ontem.

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