quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Olha a tendência...do mercado!!!

Adeus, bolha: salários de profissionais de TI estão nivelados no mercado
Foi-se o tempo em que trabalhar em tecnologia da informação (TI) era sinônimo de remuneração nas alturas. Hoje, quase cinco anos depois do boom da internet, o mercado de TI acompanha as tendências de remuneração e gestão de RH do mercado geral. Essa afirmação é do gerente de consultoria do setor de tecnologia e consumo do Hay Group Brasil, Rogério Pedace, e compartilhada pelo consultor Benedito Borghi, sócio-diretor da Lopes & Borghi Consultores Associados e responsável pela quinta edição de uma pesquisa salarial exclusiva da área de TI, lançada no mês passado. “O profissional hoje está mais preocupado em ter um emprego garantido do que um bom salário”, resume Borghi.

De qualquer modo, o consultor da Lopes & Borghi pondera que existem algumas posições-chave que recebem salários melhores, conforme demonstrou o estudo da consultoria. É o caso dos profissionais de segurança da informação. Segundo Pedace, que também acompanha anualmente as práticas de gestão e remuneração em TI, os especialistas dessa área chegam a ganhar 10% a mais do que os de outras famílias de cargos, sobretudo por causa da necessidade de especialização que a posição exige. “Há poucos profissionais realmente capacitados para tanto”, diz o consultor.

Fenômeno semelhante se dá na área de open source, de softwares livres, que, ao contrário dos programas comercializados pelas gigantes do ramo, como a Microsoft, permitem adaptações. A única diferença é que pode não ser uma seara tão promissora, pondera Borghi, uma vez que compete com os produtos não abertos. Ainda dentro do campo de proteção de dados, há também uma área de futuro, ainda em formação – a de recuperação de desastres, que tomou mais forma após o atentado de 11 de setembro de 2001. “Imagine uma empresa que tinha um banco de dados em uma torre e o backup em outra: ela simplesmente sumiu”, exemplifica o consultor da Lopes & Borghi. O papel desse novo profissional é o de recuperar o que desapareceu. Para tanto, porém, não basta conhecimento. É preciso até uma certificação, conferida por um instituto próprio, dos EUA, e ainda rara por aqui. Segundo Borghi, no Brasil não passam de cinco os especialistas certificados.

Fora esses nichos, no entanto, Borghi insiste: hoje não se briga mais por salário em TI, mas por emprego. “O mercado teve uma evolução forte em 1995, e foi assim até 2001, quando se tornou predador e a remuneração atingiu valores impensáveis”, analisa. Depois disso, por causa dos altos investimentos feitos, as contratações pararam e cederam espaço para as demissões. “E, entre 2002 e 2003, o mercado se retraiu, tendo ficado, porém, mais saneado, mais maduro”, entende Borghi.

Em 2004, a estagnação prosseguiu e os sinais de melhora só começaram a dar as caras nos primeiros meses de 2005. Tanto é assim que o Hay Group apontou, no estudo deste ano, um crescimento de salário e de remuneração variável da ordem de 6% em relação a 2004.

Para Borghi, contudo, ainda que a temperatura em TI volte a subir, jamais haverá a dança de cadeiras observada entre 2000 e 2001, quando os executivos trocavam de emprego por salários 50% superiores ou até pelo dobro da remuneração. Por causa das fusões e aquisições, o mercado ficou menor. Para ilustrar, o consultor dá o exemplo da BMC Software, que começou com quatro produtos e, depois de adquirir uma série de empresas, ficou com um portfólio de 800 produtos. “Hoje sobra gente no mercado”, sintetiza. Pedace concorda: “Não vejo, no horizonte, nenhuma grande novidade tecnológica que possa formar outras bolhas”, assinala o gerente do Hay Group, enfatizando que, ainda que venha a acontecer algo semelhante ao boom da internet, o fato não provocará o mesmo efeito danoso de 2001.

Variação

Apesar disso, a pesquisa da Lopes & Borghi apontou uma oscilação dos valores pagos para os profissionais de TI. Entre as 56 companhias de médio e grande porte pesquisadas, os salários chegaram a variar bastante em alguns cargos, como os de analista programador sênior, cujo menor salário encontrado foi de R$ 3.300 e o maior, de R$ 6.500, quase o dobro. O mesmo ocorreu na gerência de segurança da informação, que variou de R$ R$ 7.270 a R$ 14.620.

Borghi esclarece que, não obstante tais diferenças, a variação depende muito do tamanho da companhia e do próprio negócio. “As empresas de produtos e serviços têm rentabilidade maior e, portanto, conseguem pagar mais e reter mais do que as distribuidoras, que realmente não oferecem salários tão atraentes”, assinala. Já a pesquisa do Hay não mostra essa variação por causa da metodologia usada pela consultoria. De qualquer modo, Pedace reconhece a oscilação e a atribui ao fato de mesmos cargos, em diferentes realidades, abrangerem funções e atividades distintas. “Isso mexe com a remuneração”, frisa.

Variável

Se, por um lado, pouca coisa tem mudado no contracheque fixo, no variável, Borghi observou pelo menos uma tendência interessante. “Os executivos da área comercial das empresas de TI estão participando da rentabilidade”, nota. Assim, se fazem uma venda na margem desse rendimento, comprometem não só o resultado da empresa, mas igualmente seus ganhos variáveis. O que quer dizer que, quanto mais bem negociada for uma transação, melhor será sua comissão.

Já na área técnica de TI não há remuneração por resultado, segundo o consultor da Lopes & Borghi. A maioria das empresas dá até um salário a título de PLR para a massa – sobretudo por causa da exigência dos sindicatos – e de dois a dez salários para o nível executivo a título de bônus, mostrou a pesquisa. As stock options, que foram a grande vedete da bolha, estão em baixa e deixaram de ser atraentes nessa área, avisa Borghi. Comparando esse cenário com o de outros setores, apenas os cargos de coordenação e gerência ficam abaixo da média quando a remuneração variável é somada à fixa, de acordo com Pedace, do Hay Group. O resultado, porém, se equipara à média do mercado geral para cargos abaixo da coordenação e, na outra ponta, para os de diretoria, continua o gerente.

Por fim, no campo dos benefícios, que indiretamente também compõem a remuneração, Borghi observou um crescimento na concessão do pacote flexível, embora não o tenha quantificado. “A população de analistas e de responsáveis pelo desenvolvimento e pela implantação de sistemas é formada por gente jovem, de 22 a 28 anos, que não valoriza tanto assistência médica nem para seguro de vida e está mais preocupada em fazer um curso de idiomas ou um MBA”, explica Borghi. Embora essa relação faça sentido, Pedace não percebe o mesmo movimento. “Na teoria, é um bom benefício, porém, na prática, muitas empresas estão voltando atrás nessa opção porque a legislação brasileira dificulta bastante sua implantação”, observa.

Outro dado curioso, que não deixa de interferir na remuneração, é a particularidade da relação de trabalho em TI. A pesquisa da Lopes & Borghi indicou uma freqüência expressiva de profissionais contratados como pessoa jurídica, não entre as multinacionais, que realmente não contratam fora da CLT, mas entre as companhias nacionais. “Há casos de empresas com 2 mil profissionais, dos quais 1.500 são pessoas jurídicas”, diz. Mesmo assim, Pedace, do Hay Group, não acredita que a fórmula vá perdurar. “Em médio e longo prazo, haverá um retorno para a contratação formal, pela CLT, especialmente por causa do peso dos tributos, que aumentou com as alterações feitas recentemente na legislação”, prevê. Para ele, o impacto da carga tributária sobre a remuneração líquida do trabalhador – pessoa jurídica – vai derrubar essa prática, vista até então com naturalidade pelo mercado de TI, mas que, do ponto de vista legal, também pode ser comprometedora.

Solange Arruda e Débora Marques

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